FILIA-TE NO PCTP/MRPP! LUTA PELO SOCIALISMO E PELO COMUNISMO! CONSTRÓI UM FUTURO MELHOR PARA TODOS! ENVIA O TEU CONTACTO PARA porto@pctpmrpp.org
Segunda-feira, 5 de Março de 2007

Quanto valem as vidas perdidas ingloriamente no mar?

Embora já tenham passado dois meses (5 de Janeiro) sobre o momento em que foi escrito este texto do camarada Garcia Pereira, a sua actualidade permanece, pelo que o transcrevemos na íntegra.

Na semana passada, entre o estupefacto e o indignado, todos tomámos conhecimento da morte de três pescadores e do desaparecimento (e quase certo falecimento) de outros três, na sequência do naufrágio, numa praia ao Norte da Nazaré, da embarcação de pesca em que todos trabalhavam.

Isto com a embarcação encalhada, com o mar revolto mas a uns escassos 40 metros da praia, e com familiares, amigos e passeantes de ocasião a assistirem, durante horas a fio, ao desaparecimento, um a um, daqueles seis pescadores antes que o socorro chegasse.

Perante a justa indignação que semelhante barbárie suscitou eis que o Governo determinou o habitual inquérito que, tal como habitualmente, concluiu no essencial que nada havia a fazer de mais ou melhor e que nada há a apontar ao sistema de socorro e salvamento em Portugal.

E todavia seis vidas se perderam ingloriamente, no maior dos desesperos que se pode sentir, os náufragos pela dramática demora do tão desejado socorro e os seus familiares e amigos pela impotência em não conseguir salvar quem ali tão perto resistia tão estóica quanto, afinal, inutilmente.

Eram tais mortes inevitáveis? É óbvio que não! E é preciso dizer antes de mais que elas ocorreram - e, infelizmente, outras continuarão a ocorrer se nada de substancial se modificar entretanto - porque em matéria de segurança e salvamento marítimo está (quase) tudo mal em Portugal. O que aliás constitui uma ácida e negra ironia num país com tão grandes tradições náuticas e com uma Zona Económica Exclusiva quase vinte vezes maior que o território continental.

Antes de mais, é notório que aquilo que mais podia e devia constituir uma das nossas maiores riquezas, ou seja, as nossas águas, já há muito que, do ponto de vista do desenvolvimento estratégico do nosso país foi abandonado pelos sucessivos governos. Os fundos comunitários, longe de terem servido para modernizar e reapetrechar a nossa frota pesqueira, representaram antes "os  30 dinheiros" da sua destruição; os vastíssimos recursos naturais dos nossos mares foram abandonados aos apetites das principais frotas estrangeiras, a começar pela espanhola; os meios investidos na fiscalização e patrulhamento são dramaticamente escassos, tornando fácil e frequentemente impune a violação das regras relativas ao respeito pelo limite das águas territoriais, à salvaguarda do ambiente e ao combate à poluição e ao tráfico de droga.

O mar que poderia, e deveria, constituir uma importante mais-valia e uma poderosa alavanca do nosso desenvolvimento deixou de ser pensado, concebido e tratado como tal.

A pesca foi praticamente extinta, a investigação científica quase não existe e os nossos biólogos marítimos são obrigados a emigrar. A própria náutica de recreio - mercê também da actuação de organismos mais ou menos medievais como as Administrações dos Portos - é hoje estrangulada por toda a sorte de constrangimentos, a começar pelos elevadíssimos custos (é muito mais caro manter uma embarcação numa marinaportuguesa do que numa espanhola). A vela, de desporto absolutamente essencial e de escola de formação, é cada vez mais convertida em "hobby" de apenas algumas elites.

E um objectivo fundamental para o desenvolvimento do país como o de devolver a Lisboa o papel de um dos maiores e mais bem apetrechados portos da Europa e com uma das melhores localizações geo-estratégicas não faz parte da agenda política dos nossos governantes.

Por esta lógica, o mar e quem lá anda, sobretudo quem lá anda a lutar pela vida, sua e dos seus, são pois coisa "de somenos".

Do ponto de vista do papel das Forças Armadas, e muito em particular da Marinha e Força Aérea, todos percebemos que, para mais num país como o nosso - sem nenhum risco próximo de guerras, a não ser as que resultam do seu envolvimento em guerras de agressão às ordens do imperialismo americano -, o seu esforço principal, em termos de tarefas e de meios, deveria estar centrado não nos "jogos de guerra" que servem apenas para entreter um gigantesco número de almirantes e generais, mas sim nas missões de paz, e fundamentalmente nas operações de patrulhamento, fiscalização, busca e salvamento.

Mas obviamente não estão! E é preciso dizer também que não está em causa o empenhamento pessoal e o profissionalismo de todos quantos na Marinha e na Força Aéres levam a cabo esse tipo de missões, e que naturalmente procuram sempre dar o melhor que sabem e podem.

A questão é, porém, outra. Portugal não tem barcoss salva-vidas de alto mar (ao estilo dos correspondentes navios e lanchas da Guarda Costeira norte-americana, caracterizados pela sua alta velocidade, elevada manobrabilidade e grande capacidade para enfrentar praticamente qualquer tipo de mar) e os nossos salva-vidas costeiros são poucos, obsoletos e desprovidos dos meios adequados a realizar cabalmente missões deste tipo.

Quase sempre essas missões são, entre nós, levadas a cabo por fragatas e patrulhas que, mau grado o grande e dedicado esforço a que as respectivas tripulações se têm dedicado, não são manifestamente embarcações vocacionadas para o socorro marítimo.

Em particular no Continente - a situação é algo diferente nas Regiões Autónomas, em particular na da Madeira - a Polícia Marítima também não tem vocação nem formação específica nem meios para operações de socorro no mar. Torna-se assim bem mais fácil andar a passar multas por falta do alfinete de dama que deve existir a bordo de cada embarcação do que ir arriscar a vida a procurar salvar alguém que está em perigo. E quantos episódios se não conhecem de situações em que a primeira preocupação não foi a de ocorrer ao pedido de socorro mas antes tratar de exigir a identificação da estação rádio emissora do pedido de auxílio... E no naufrágio junto à Nazaré, a verdade é que a Polícia Marítima comparece na praia para assistir ao desenrolar do sinistro, com uma carrinha que nem uma única bóia ou um cabo transportava!

Na esmagadora maioria dos casos não existem nem nas capitanias, nem nas corporações de bombeiros meios de salvamento que muito provavelmente teriam podido salvar pelo menos algumas vidas das que agora se perderam: nem canhões ou foguetes lança-cabos, nem sistemos de vai-e-vem, nem pranchas, nem motas de água (utilíssimo instrumento de salvamento, como aliás se viu por exemplo na Boca do Inferno, em Cascais) por conseguirem ir onde nenhum outro tipo de embarcação, pela proximidade de costa, pela pouca profundidade ou pela existência de redes, consegue chegar. No caso do naufrágio da Nazaré foi referido que haveria algures uma moto de água mas que, por razões burocráticas (falta de registo?), não teria sido autorizada a sair para o mar!?

Desinvestiu-se claramente, por razões economicistas de "poupança", na formação, designadamente dos pescadores, desprezando assim a criação de uma cultura e de um treino contínuos de prevenção e segurança no mar.

Exactamente por o mar ser de todo uma prioridade e de as Forças Armadas não terem, como deviam, esse tipo de missões como seu principal papel, apesar de haver em Portugal várias Bases Aéreas, existe uma única (a do Montijo) onde estão sediados aparelhos equipados e tripulações treinadas para o socorro marítimo. E porque custa "muito caro" ter continuamente uma aeronave e respectiva tripulação em condições de levantar voo num muito curto espaço de tempo, o levar a cabo essa operação de descolagem leva, pelo menos, 45 minutos!? E a tal demora se terá ainda que somar o tempo de percurso, necessariamente tão mais longo quanto mais longínquo for o local de destino.

O que tudo significa que, desde que é activado o pedido de socorro (seja pela ligação da rádio-baliza EPIRB seja pelo lançamento de um "May-Day" via rádio) - que, pela própria natureza das coisas, significa que há a estrita necessidade de socorro urgente - com este sistema, até à chegada de tal socorro via helicóptero decorrerá pelo menos cerca de hora e meia a duas horas, e nalguns casos poderá demorar bastante mais do que isso.

Ora, numa situação de naufrágio, em que todos os segundos contam, esse lapso de tempo, aliado à inexistência de meios adequados em terra e no mar próximo, significará quase sempre a perda de vidas, que de outra forma, com outro sistema e com outros meios, poderiam ser salvas.

Não se trata de iludir o mau estado do mar na madrugada do naufrágio, as eventuais dificuldades na exacta localização do sinistro (o que também tem muito a ver com a falta de articulação, designadamente em termos de comunicações, entre as diferentes forças e equipas envolvidas) e o inegável risco de um resgate aéreo naquelas condições (de vento, de ondulação, de mastros da embarcação, etc.), bem como de uma aproximação por mar (devido às redes a flutuarem em redor do casco e à sonda reduzida do local).

Mas trata-se, isso sim, de dizer que com outro sistema, outros meios e outros equipamentos tinha sido seguramente possível fazer muito mais, e mais eficazmente, e que muito possivelmente aquelas vidas poderiam ter sido salvas. E que todos os que se indignaram com as condições em que aqueles seis homens do mar se perderam têm afinal toda a razão do Mundo nessa raiva e nessa sua indignação!

E as perguntas que estão agora colocadas, antes de mais aos governantes e principais responsáveis deste País, mas também a todos e cada um de nós, e que não podem mais ser iludidas, são estas:

Justifica-se ou não que um País como o nosso tenha um sistema de busca e salvamento no mar bem mais eficaz do que aquele de que dispõe hoje, e muito em particular para as águas costeiras? E as Forças Armadas, bem como as forças policiais marítimas e as corporações de bombeiros das zonas costeiras, devem ou não ter como vertente principal da sua organização, formação e equipamento exactamente esse tipo de operações de socorro, devendo ser feito um esforço sério nesse tão necessário apetrechamento?

E para aqueles fariseus do templo que - como sempre e sobretudo agora, claro que em nome do sacrossanto défice - acorram a responder que "isso sai caro", impõe-se olhá-los nos olhos e perguntar-lhes se os F-16, que são tão só armas de guerra e que andamos a comprar em segunda ou terceira mão, não são muito mais caros. Mas sobretudo perguntar-lhes quanto valem então para eles as vidas daqueles seis homens, quanto vale o desgosto das mulheres que ficaram viúvas, a perda dos filhos que ficaram órfãos, a dor dos pais que viram desaparecer a carne da sua carne? Quanto valem agora os dias e as noites sem fim, de saudades, de silêncios, de sonhos e de desesperos?

QUANTO VALEM?

Lisboa, 5 de Janeiro de 2007

 

António Garcia Pereira

publicado por portopctp às 11:44
endereço do artigo | comentar | favorito
1 comentário:
De portopctp a 7 de Março de 2007 às 18:04
Temos de pedir desculpa aos nossos leitores e ao camarada Garcia Pereira: as "gralhas" também chegaram a "A essência do Porto". E teve que ser logo neste artigo!
Bom! Agora já está corrigido. Futuramente não mais baixaremos a guarda e agradecemos que, caso ocorram novas gralhas, nos comuniquem.


Comentar artigo

artigos recentes

Viva o PCTP/MRPP!

Viva o comunismo!

Honra a Ribeiro Santos!

Viva o comunismo!

VIVA O 1º DE MAIO!

A luta da mulher pela sua...

TRABALHADORES DA SOARES D...

VIVA O COMUNISMO!

Conferência de Imprensa

1.º de MAIO é dia de LUTA...

Democracia para o Povo!

E assim está bem!

Honra aos camaradas Ribei...

Viva o Partido!

As razões para Portugal S...

Uma aula aberta

SAIR DO EURO!

Saída do euro, porquê?

A envolvente repressiva/s...

8 de Março no Porto

Viva a comuna!

Casino da Póvoa de Varzim...

Opor barreira ao avanço d...

Um enorme embuste

Três pontos apenas

ENVC: Não basta lutar É p...

Casino da Póvoa de Varzim...

VIVA O PARTIDO!

MANIFESTO contra a morte ...

ENVC: A necessidade de pa...

9 de Novembro: trabalhado...

Viva o comunismo!

Cavaco e governo, RUA!

Derrubar o governo!

Primeiro passo: derrubar ...

Mais democracia e control...

PLENO EMPREGO, apenas uma...

Habitação: um direito fun...

Transportes: um nó górdio...

Semanário de Felgueiras, ...

O Golpe de Estado de Cava...

Greve Geral de 27 de Junh...

CASINO DA PÓVOA - Subsídi...

ENVC - chegou chapa, mas ...

A vitória está ao alcance...

É POSSÍVEL!

Acusados da EsCol.A - tri...

O 1.º de MAIO é dia de LU...

Demita-se ou seja demitid...

Esta farsa tem de acabar

Dezembro 2016

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
15
16
17

18
19
20
21
22
23
24

25
27
28
29
30
31


pesquisar neste blogue

 

mais sobre nós

deixe uma mensagem

escreva aqui

arquivos

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Maio 2016

Março 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Setembro 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Outubro 2014

Setembro 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Julho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Junho 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

visitas a partir de 28 de Novembro de 2013

contador

artigos sobre

todas as tags

blogs SAPO

subscrever feeds