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Quarta-feira, 12 de Março de 2008

Terrorismo internacional: a lista dos mais procurados

Transcrevemos na íntegra, em versão nossa em português de Portugal, da tradução de Naila Freitas / Verso Tradutores de texto de Noam Chomsky que nos foi enviado sobre a atitude moral  dos apologistas dos crimes sionistas e dos EUA perante mortes violentas no Médio Oriente:

Os apologistas mais vulgares dos crimes dos EUA e Israel explicam com solenidade digna da melhor causa que, enquanto os árabes têm o propósito de matar pessoas, os EUA e Israel não têm a menor intenção de fazê-lo. Os seus mortos são, simplesmente, acidentais e não podem ser comparados com os dos seus adversários.

Noam Chomsky

Data: 06/03/2008
 
No dia 13 de Fevereiro passado, foi assassinado em Damasco Imad Moughniyeh, um veterano dirigente do Hezbollah. “O mundo é um lugar melhor sem este homem”, disse o porta-voz do Departamento de Estado, Sean McComarck, e acrescentou que “de um modo ou de outro, foi feita justiça”. E Mike McConnell, director da Inteligência Nacional, acrescentou que Moughniyeh “foi o terrorista responsável pelo maior número de mortes de norte-americanos e israelitas depois de Osama bin Laden”. Israel também deu vazão à sua alegria: “um dos homens mais procurados pelos EUA e por Israel” teria sido justiçado, segundo informou o Financial Times. Com o título de “Um militante procurado em todo o mundo”, foi publicado um relatório segundo o qual Moughniyeh vinha logo após Osama bin Laden na lista dos mais procurados após o 11/9 e, portanto, era o segundo entre os “militantes mais procurados no mundo”. A terminologia é suficientemente precisa, de acordo com as regras do discurso anglo-americano, que entende por “mundo” a classe política de Washington e Londres (e todos aqueles que concordem com eles em determinados assuntos). Assim, por exemplo, é frequente ler que todo o “mundo” apoiou George Bush quando ordenou o bombardeamento do Afeganistão. E isto pode ser verdade para “o mundo”, mas dificilmente o é para o mundo, como teve boa ocasião de revelar a agência internacional de pesquisa Gallup logo após o anúncio do bombardeio. O apoio mundial foi mínimo. A percentagem de aceitação numa América Latina com ampla experiência nas condutas dos EUA oscilou entre os 2% do México e os 16% do Panamá, sendo que esse minúsculo apoio estava condicionado à prévia identificação dos suspeitos (segundo o FBI, eles ainda estavam sem identificar oito meses depois), e a que os alvos civis estivessem a salvo, coisa que não ocorreu. O mundo mostrava uma esmagadora preferência pela via diplomático-jurídica, mas “o mundo” descartou essa via por completo.
 
Atrás do rastro do terror
No caso presente, se “o mundo” fosse todo o mundo, poderíamos encontrar outros candidatos dignos de honra como arqui-inimigos mais odiados. E é instrutivo que nos perguntemos por quê. O Financial Times informou que a maioria das acusações contra Moughniyeh não estavam provadas, mas “uma das poucas vezes em que é possível afirmar com certeza a sua participação [é no] sequestro do avião da companhia TWA, em 1985, quando foi assassinado um mergulhador da armada norte-americana”. Esta foi uma das duas atrocidades terroristas que, segundo uma pesquisa entre directores de jornais, fez com que o terrorismo no Médio Oriente se transformasse na notícia mais importante de 1985; a outra foi o sequestro do navio de linha Archille Lauro, no qual resultou brutalmente assassinado Leon Klinghoffer, um inválido norte-americano. Isto reflecte o julgamento do “mundo”. É possível que o mundo visse as coisas de outra maneira. O sequestro do Achille Lauro foi a represália pelo bombardeio da Tunísia, ordenado uma semana antes pelo Primeiro-Ministro israelita Simón Peres. A sua força aérea assassinou setenta e cinco tunisinos e palestinianos com bombas inteligentes que os deixaram em mil pedaços, entre outras atrocidades narradas de maneira vívida pelo destacado jornalista israelita Amnon Kapeliouk. Washington colaborou, uma vez que omitiu advertir o seu aliado tunisino de que as bombas estavam a caminho, e é impossível que a Sexta Frota e a inteligência norte-americana não soubessem do iminente ataque. George Schultz, então Secretário de Estado, comunicou ao Ministro israelita de Assuntos Exteriores, Yitzhak Shamir, que em Washington “a acção israelita despertou uma enorme simpatia”, e qualificou essa acção — com o aplauso geral — como uma “resposta legítima” aos “ataques terroristas”. Poucos dias depois, o Conselho de Segurança da ONU denunciou de forma unânime (com a abstenção dos EUA) os bombardeamentos como um “acto de agressão armada”. Sobra dizer que “agressão” é um crime muito mais grave que terrorismo internacional. Mas, concedendo o benefício da dúvida aos EUA e a Israel, vamos deixar que recaia sobre os responsáveis apenas a acusação menos grave. Poucos dias antes, Peres foi a Washington consultar o principal terrorista internacional do momento, Ronald Reagan, que denunciou “o terrível flagelo do terrorismo”, novamente com o aplauso geral do “mundo”. Os “ataques terroristas” que Shultz e Peres pretextaram para bombardear a Tunísia foram os assassinatos de três israelitas em Larnaca, Chipre. Os assassinos, como admitiu Israel, não tinham nenhuma relação com a Tunísia, mas talvez tivessem conexões com a Síria. Contudo, a Tunísia era um alvo bem melhor: estava inerme, diferente de Damasco. Além disso, proporcionava um prazer adicional: ali podiam ser assassinados mais palestinianos exilados. Por sua vez, os assassinatos de Larnaca foram considerados uma represália pelos seus perpetradores: uma resposta aos sistemáticos sequestros israelitas em águas internacionais, que resultaram nos assassinatos de muitas pessoas e no sequestro e conseguinte encarceramento de muitas outras, retidas sem acusações por longos períodos em cárceres israelitas. O mais famosa destes foi a prisão/câmara-de-tortura 1391. Há muita informação sobre isso na imprensa israelita e estrangeira. Esses crimes sistemáticos, é claro, são conhecidos pelas redacções dos jornais dos EUA e, de vez em quando, são mencionados quase de passagem. O assassinato de Klinghoffer's foi vivenciado com uma verdadeira sensação de horror e é muito célebre. Transformou-se em tema de uma ópera aclamada e em roteiro de um filme feito para a televisão. Mas também causaram horror os assombrosos comentários condenando a selvajaria dos palestinianos: “bestas bicéfalas” (segundo o Primeiro-Ministro Menachen Begin), “baratas drogadas debatendo-se numa garrafa” (segundo o Chefe da Equipe Raful Eitan), “como grilos, comparados a nós”, seres cujas cabeças deveriam ser “transformadas em picadinho batendo-as contra o canto rodado das paredes” (disse o Primeiro-Ministro Yitzhak Shamir). Ou, simplesmente, chamados de araboushim, o equivalente ao nosso “judeu” ou ao nosso “negro”. Assim, depois de uma exibição particularmente depravada de terror militar e de uma intencionada humilhação na cidade de Halhul, na Ribeira Ocidental, em Dezembro de 1982 (deixou incomodados até os falcões israelitas!), o conhecido analista militar e político Yoram Peri escreveu consternado: “hoje, um dos objectivos do nosso exército [é] demolir os direitos de pessoas inocentes simplesmente porque são araboushim que vivem em territórios que Deus prometeu a nós”, tarefa, esta, cada vez mais urgente, e que se realiza com crescente brutalidade desde que os araboushim começaram a “levantar a cabeça” uns anos atrás. Não é difícil averiguar se os sentimentos expressados com motivo do assassinato de Klinghoffer foram sinceros. Basta investigar a reacção diante dos crimes israelitas respaldados pelos EUA. Vamos pensar, por exemplo, no assassinato de dois inválidos palestinianos em Abril de 2002, Kemal Zughayer e Jamal Rashid, pelas mãos das forças israelitas em incursão no campo de refugiados de Jenin, na Ribeira Ocidental. Os jornalistas britânicos encontraram o corpo esmagado de Zughayer e os restos da sua cadeira de rodas, junto com o que restava de uma bandeira branca que ele segurava no momento de ser assassinado, quando tentava fugir dos tanques israelitas que foram lançados sobre ele partindo o seu rosto em dois pedaços e amputando braços e pernas. Jamal Rashid terminou esmagado na sua cadeira de rodas quando uma das enormes pás escavadoras fornecidas pelos EUA destruiu a sua casa em Jenin, com toda sua família dentro. A diferente reacção, ou por melhor dizer, a falta absoluta de reacção, é a rotina, e é tão fácil de explicar que não precisa de maiores comentários.
 
Carro-Bomba
Simplesmente, o bombardeio da Tunísia em 1985 foi um crime terrorista infinitamente mais grave do que o sequestro do Achille Lauro, ou que o crime ocorrido nesse mesmo ano em que a participação de Moughniyeh`s “podia ser estabelecida com certeza”. Mas mesmo o bombardeio tunisino tem competidores para o prémio no concurso das maiores atrocidades terroristas no Oriente Médio desse ano ímpar que foi 1985. Um dos aspirantes foi o carro-bomba colocado em Beirute na saída de uma Mesquita e programado para explodir quando os devotos se retiravam depois das suas orações de sexta-feira. A bomba matou 80 pessoas e feriu outras 256. A maioria dos mortos eram meninas e mulheres que saíam da Mesquita, apesar de que a ferocidade da onda expansiva “carbonizou bebés nos seus berços”, “matou uma noiva que estava comprando o seu enxoval”, e “fez voar pelos ares três crianças que voltavam para casa vindas da Mesquita”. Também devastou a rua principal do subúrbio densamente povoado de Beirute Oeste, como informou há três anos Nora Boustany no Washington Post. O alvo pretendido era o clérigo Shiita Sheikh Mohammad Hussein Fadlallah, que conseguiu escapar com vida. O atentando foi perpetrado pela CIA de Reagan e seus aliados sauditas, com ajuda britânica, e autorizado especificamente pelo Diretor da CIA, William Casey, segundo o relato do jornalista do Washington Post, Bob Woodward, no seu livro "O Véu: as guerras secretas da CIA 1981-1987". Muito pouco se conhece além dos meros factos, graças à escrupulosa aceitação da doutrina, segundo a qual não se deve investigar os nossos próprios crimes (a menos que fiquem conhecidos demais para que possamos negá-los e a investigação fique limitada ao círculo de umas poucas “maçãs podres” subalternas que, como todo o mundo já sabe, agem de modo “descontrolado”).
 
“Aldeões terroristas”
O terceiro candidato ao prémio do terrorismo no Oriente Médio de 1985 foram as operações “Iron Fist” [Punho de Ferro] do Primeiro-Ministro Peres nos territórios do Sudeste do Líbano, ocupados nesse momento por Israel, violando as ordens do Conselho de Segurança da ONU. O objectivo, segundo os altos comandos israelitas, era os chamados “terroristas aldeões”. Neste caso, os crimes de Peres derraparam pelos novos caminhos da “brutalidade calculada” e do “assassinato arbitrário”, segundo palavras de um diplomata ocidental entendido nestes temas, afirmações posteriormente corroboradas pelas filmagens ao vivo dos factos. Mas como nada disso interessava ao “mundo”, não foram investigados. Como de costume. Seria legítimo perguntar se esses crimes se enquadram sob a categoria de terrorismo internacional ou sob a categoria, bem mais grave, de crime de agressão. Mas vamos conceder, mais uma vez, o beneficio da dúvida a Israel e seus sequazes de Washington, e vamos conformar-nos com a acusação menos grave de terrorismo. Essas são algumas das ideias que podem passar pela cabeça das pessoas de qualquer lugar do mundo — que não nas do “mundo” —, quando pensam naquela “ocasião”, “uma das poucas” em que Imad Moughniyeh esteve claramente envolvido num crime terrorista. Os EUA acusam-no, também, de ter sido responsável pelos ataques arrasadores contra a marinha dos EUA e contra os barracões de pára-quedistas franceses no Líbano, em 1983, ataques perpetrados com um camião bomba e dois suicidas e que resultaram na morte de 241 marines e 58 pára-quedistas. E também de um ataque anterior contra a Embaixada dos EUA em Beirute, que matou sessenta e três pessoas e foi particularmente grave, porque nesse momento estava a ser realizada uma reunião em que participavam funcionários da CIA. Contudo, o Financial Times atribuiu o ataque contra os barracões à Jihad islâmica e não ao Hezbollah. Fawz Gerges, um dos académicos destacados no estudo dos movimentos Jihad e libaneses, escreveu que um “grupo desconhecido denominado Jihad islâmica” assumiu a responsabilidade. Uma voz que falava em árabe clássico instou todos os norte-americanos a deixarem o Líbano, ou enfrentariam a morte. Tem sido dito que Moughniyeh era, nesse momento, o cabeça da Jihad islâmica, mas, até onde alcança meu conhecimento, há escassas provas disso. Não existem sondagens da opinião mundial a esse respeito, mas é bem provável que se deva chamar de “ataque terrorista” o ataque a uma base militar radicada num país estrangeiro, especialmente porque as forças dos EUA e da França estavam desenvolvendo vigorosos bombardeios navais e aéreos no Líbano e ocorreu pouco depois de os EUA prestarem um apoio decisivo à invasão israelita do Líbano em 1982, que acabou com a vida de umas 20.000 pessoas e devastou o sul, deixando grande parte de Beirute em ruínas. Finalmente, o Presidente Reagan suspendeu os ataques quando o protesto internacional após os massacres de Sabra-Shtila subiu de tom a tal ponto, que não pôde mais ser ignorado. Geralmente, nos EUA, a invasão israelita do Líbano é descrita como uma reacção aos ataques terroristas no norte de Israel, a partir de bases libanesas, por parte da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), explicação que torna compreensível a nossa crucial contribuição para esses crimes de guerra maiores. No mundo real, a fronteira libanesa esteve quieta durante um ano, apesar de repetidos ataques israelitas, muitos deles sangrentos, tendentes a provocar alguma resposta da OLP que servisse como pretexto para uma invasão já decidida e planeada. Os comentadores e líderes israelitas não confessaram o seu verdadeiro propósito nesse momento: salvaguardar o poder israelita na zona ocupada da Margem Ocidental. Não carece de interesse o facto de que o único erro grave do livro de Jimmy Carter ("Palestina: Paz ou Apartheid") seja a reiteração do cocktail propagandístico, segundo o qual os ataques da OLP a partir do Líbano foram a causa da invasão por parte de Israel. Sobre o livro choveram ataques e têm sido feitos esforços desesperados para encontrar alguma frase que pudesse ser mal interpretada, mas este erro flagrante, o único, foi ignorado. E com razão, porque assim se cumpre com o critério de respeitar as falsificações doutrinárias úteis.
 
Matar sem querer
Outra das acusações contra Moughniyeh: foi transformado no “cérebro” da bomba na Embaixada de Israel em Buenos Aires que, no dia 17 de Março de 1992, matou vinte e nove pessoas. Foi uma resposta — como disse o Financial Times — “ao assassinato por parte de Israel do antigo chefe do Hezbollah, Abbas Al-Mussawi no decurso de um ataque aéreo no sul do Líbano”. Sobre este assassinato não são necessárias maiores provas, porque Israel assumiu com orgulho o mérito. Mas o mundo poderia ter um certo interesse no resto da história. Al-Mussawi foi assassinado com um helicóptero fornecido pelos EUA numa zona muito a norte da “zona de segurança” ilegalmente afixada por Israel no sul do Líbano. Estava a caminho de Sidon vindo de Jibshit, depois de dissertar num acto em memória de outro imã assassinado pelas forças israelitas. O ataque do helicóptero também acabou com a sua esposa e o seu filho de cinco anos. Após o ataque, Israel serviu-se de outros helicópteros, também fornecidos pelos EUA, para atacar um camião que transportava os sobreviventes do primeiro ataque para um hospital. Depois do assassinato da família, o Hezbollah “mudou as regras do jogo”, informou o Primeiro-Ministro Rabin perante o Parlamento israelita. Nunca antes tinham sido lançados mísseis contra Israel. Até àquele momento, as regras do jogo eram que Israel podia lançar ataques mortíferos onde quisesse e segundo o seu arbítrio, e o Hezbollah tinha que se limitar a responder dentro do território libanês ocupado por Israel. Após o assassinato do seu líder (e da sua família), o Hezbollah começou a responder aos crimes de Israel no Líbano atacando o norte de Israel. Isto é, evidentemente, terror intolerável para “o mundo”, ou seja o que levou Rabin a lançar uma invasão que expulsou dos seus lares 500.000 pessoas e matou mais de 100. Os inclementes ataques israelitas chegaram até o norte do Líbano. No Sul, 80% da cidade de Tiro fugiu e Nabatiye ficou reduzida a uma “cidade fantasma”. Segundo um porta-voz do exército israelita, Jibshit foi destruída em 70%, e acrescentou que o objectivo era “destruir a cidade por completo, dada sua importância para a população shiita do sul do Líbano”. O objectivo era “apagar as cidades da face da terra e semear destruição à sua volta”, segundo a descrição dessa operação de um veterano oficial do comando norte israelita. É possível que Jibshit tenha sido um objectivo cobiçado porque foi a terra do Sheik Abdul Karim Obeid, sequestrado e levado para Israel vários anos antes. A pátria de Obeid “recebeu o impacto directo de um míssil”, informou o jornalista britânico Robert Fisk, “ainda que o mais provável é que os israelitas estivessem atirando contra a sua mulher e os seus três filhos”. Mark Nicholson escreveu no Financial Times que aqueles que não escaparam esconderam-se aterrorizados, “porque era possível que qualquer movimento dentro ou fora das suas casas atraísse a atenção da artilharia israelita, a qual disparava os seus projécteis repetida e arrasadoramente sobre objectivos seleccionados”. Por momentos, os projécteis da artilharia alvejavam algumas aldeias a um ritmo de mais de dez disparos por minuto. Todos estes factos contaram com o firme aval do Presidente Bill Clinton, que entendeu a necessidade de instruir com severidade os araboushim sobre “as regras do jogo”. E Rabin apareceu como o outro grande herói, como o homem da paz, muito diferente das “bestas bicéfalas”, “dos grilos” e das “baratas drogadas”. Esta é, simplesmente, uma pequena amostra dos factos que poderiam ter interesse para o mundo, uma vez relacionados com a suposta responsabilidade de Moughniyeh no acto de vingança terrorista em Buenos Aires. Outra das acusações é que Moughniyeh ajudou a preparar as defesas do Hezbollah contra a invasão israelita do Líbano, em 2006, um crime terrorista intolerável, conforme os critérios do “mundo”, convencido de que nada deve cruzar-se no caminho do justo terror e da agressão praticados pelos EUA e seus clientes. Os apologistas mais vulgares dos crimes dos EUA e Israel explicam com solenidade digna de melhor causa que, enquanto os árabes têm o propósito de matar pessoas, os EUA e Israel – sendo, como são, sociedades democráticas— não têm a menor intenção de fazê-lo. Os seus mortos são, simplesmente, acidentais, e por isso os seus assassinatos não podem ser comparados, no ponto da depravação moral, com os de seus adversários. Esta foi, por exemplo, a posição do Tribunal Supremo de Israel quando recentemente autorizou um severo correctivo colectivo contra o povo de Gaza, privando-o de electricidade (e de água, de eliminação de resíduos e águas usadas e de outros elementos básicos da vida civilizada). Uma linha de defesa, esta, que é recorrente na hora de enfrentar outros velhos pecadilhos de Washington. Por exemplo, a destruição da Fábrica Farmacêutica ao-Shifa no Sudão, em 1998. Aparentemente, o ataque custou dez mil vidas, mas não houve qualquer intenção de matá-las; daí que não fosse um crime resultante de uma ordem com expressa intenção de matar. Assim nos ensinam esses moralistas sistematicamente empenhados em eliminar qualquer réplica efectiva a essas vulgares tentativas de autojustificação. Vamos dizer mais uma vez: é possível distinguir três categorias de crimes: assassinato intencional, morte acidental e assassinato premeditado mas sem uma intenção específica. As atrocidades dos EUA e Israel são um caso típico da terceira categoria. Assim, quando Israel destruiu o fornecimento de energia em Gaza ou colocou obstáculos para viajar para a Ribeira Oriental, não teve a intenção específica de assassinar as pessoas que morreriam pela contaminação da água, ou em ambulâncias que não podiam chegar até aos hospitais. E quando Bill Clinton ordenou o bombardeio da fábrica ao-Shifa, era óbvio que isso poderia terminar numa catástrofe humana. O Observatório de Direitos Humanos deu-lhe essa informação imediatamente, facilitando todo o tipo de detalhes, mas nem Clinton nem os seus assessores quiseram matar pessoas concretas entre aqueles que inevitavelmente morreriam quando a metade das instalações da fábrica farmacêutica foram destruídas num país africano pobre que não poderia reconstruí-la. Ocorre, na verdade, que eles e os seus apologistas olham para os africanos sentindo o que nós sentiríamos ao esmagar uma formiga quando caminhamos pela rua. Somos conscientes de que é possível que ocorra (se nos incomodarmos em pensar sobre isso), mas não queremos matá-las, porque não são dignas nem dessa consideração. Não é necessário dizer que ataques similares perpetrados por araboushim em áreas habitadas por seres humanos seriam considerados de maneira muito diferente. Se por um momento fôssemos capazes de adoptar a perspectiva do mundo, poderíamos perguntarmo-nos quem são os criminosos “mais procurados no mundo inteiro”.
Noam Chomsky é professor emérito de linguística no Instituto de Tecnologia de Massachussets.
Tradução: Naila Freitas / Verso Tradutores (em nossa versão em português de Portugal)
publicado por portopctp às 19:22
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1 comentário:
De AG a 17 de Março de 2008 às 18:13
O PCTP/MRPP lê opiniões revisionistas? Chomsky? Parabéns então! Saúde.


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